|
o meu primeiro fogo, original, de mulher. sentei-me num banco e tomei conta das labaredas. reptiliana actividade. |
a mão fotografada pela m. olhar orgulhoso para o carvão e a memória das mãos do pai enquanto lhe repeti os gestos. |
o pimento e o perfume do pimento. está tudo dito? deve ser bem assado para não se tornar indigesto. não tem segredo. |
|
a livraria sem sair de casa. guardo a caixa e o papel amarrotado para acomodar os meus livros de trabalho. mt. |
o cão alonga o corpo como um cão gato. tentei imitar-lhe o gesto magnífico. não consegui, mas ri. |
o cão finge com quantos dentes tem dentro daquela bocarra que mordisca os caules das minhas flores que renascem. |
|
as minhas pessoas. observo-as, apanho-as e arquivo-as. como as borboletas, mas sem alfinetes. sem dor. |
gosto muito do olhar da mulher mais nova que olha. tem olheiras como eu. vimos da mesma terra. |
a criança no muro divertida e bonita. não por acaso sei que o vestido era azul e branco. |
|
o Rolo Duarte tem uma expressão quase triste. preocupada. aprendi com ele tudo excepto o que aprendi com a mãe. penso muito no que gostaria de ver crescer a neta, de lhe falar de cinema, da inesperada morte do nosso Soprano. Tristes. o pai está na RTP à espera. o meu olhar é muitas vezes igual. |
a criança gosta de animais. não tem medo do bicho que nem sequer dá por ela que olha para trás, provavelmente porque a chamam: não vás para aí. a criança seria criança para ir e tentar entender-se, a bem, com a fera. o equilíbrio da criança é precário. faz parte. |
ele percebeu que estava a apanhá-lo quase distraído. não sei como deu por mim, silenciosa, discreta. não se zangou e tenho outra em que sorri. esta é mais bela mesmo sem a qualidade técnica que nunca procuro nas imagens. é um bestiário. somos todos animais. |