Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

o meu primeiro fogo, original, de mulher. sentei-me num banco e tomei conta das labaredas. reptiliana actividade. 

a mão fotografada pela m. olhar orgulhoso para o carvão e a memória das mãos do pai enquanto lhe repeti os gestos. 

o pimento e o perfume do pimento. está tudo dito? deve ser bem assado para não se tornar indigesto. não tem segredo.

a livraria sem sair de casa. guardo a caixa e o papel amarrotado para acomodar os meus livros de trabalho. mt.

o cão alonga o corpo como um cão gato. tentei imitar-lhe o gesto magnífico. não consegui, mas ri.

o cão finge com quantos dentes tem dentro daquela bocarra que mordisca os caules das minhas flores que renascem.

as minhas pessoas. observo-as, apanho-as e arquivo-as. como  as borboletas, mas sem alfinetes. sem dor.

gosto muito do olhar da mulher mais nova que olha. tem olheiras como eu. vimos da mesma terra.

a criança no muro divertida e bonita. não por acaso sei que o vestido era azul e branco.

o Rolo Duarte tem uma expressão quase triste. preocupada. aprendi com ele tudo excepto o que aprendi com a mãe. penso muito no que gostaria de ver crescer a neta, de lhe falar de cinema, da inesperada morte do nosso Soprano. Tristes. o pai está na RTP à espera. o meu olhar é muitas vezes igual.

a criança gosta de animais. não tem medo do bicho que nem sequer dá por ela que olha para trás, provavelmente porque a chamam: não vás para aí. a criança seria criança para ir e tentar entender-se, a bem, com a fera. o equilíbrio da criança é precário. faz parte.

ele percebeu que estava a apanhá-lo quase distraído. não sei como deu por mim, silenciosa, discreta. não se zangou e tenho outra em que sorri. esta é mais bela mesmo sem a qualidade técnica que nunca procuro nas imagens. é um bestiário. somos todos animais. 





publicado por Fatima Rolo Duarte às 01:35
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