florinhas (Primeiras provas da secagem colhidas no dia 25 de Janeiro de 2012)
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Bruxelas, 25 de Janeiro de 2012. Olá, comprei flores que agora secam, penduradas para baixo, na pequena despensa escura. Fui ontem fotografá-las. Ei-las. Parecem-me cada vez mais belas, apesar de aprisionadas de forma cruel. Antes flores que pessoas.
No dia 22 de Janeiro de 2012 fui de metro até à baixa. Ouvi Bach que aqui se ouve e reproduzo o momento em que o sucedido sucedeu. Nada de extraordinário. O movimento das pessoas tal como as vi, quase rente ao chão. Ninguém estranhou o facto de estar sentada no chão, entregue ao que via e o iPhone registava. Apenas um rapaz de aparência suspeita e ténis Puma me desviou a atenção do que fazia. Olhei-o fixamente e ele afastou-se. Estou a rir. Devo ter sido muito expressiva no meu desagrado. Logo eu que tenho um ar tão frágil e simpático. Desculpa rapaz, senti que me ias deitar a mão ao maravilhoso telefone esperto que tanta liberdade de movimentos me proporciona. Neste particular, não sou desatenta e detesto quem se me chega carregado de intenções menos claras. E é bem verdade que nunca gostei de ténis Puma.
No entanto, junto segue prova da minha simpatia. De baixo para cima, Fátima Rolo Duarte a observar de perto as funções da câmara iPhone. Podia ser ainda melhor, vai ser muito melhor. Os meus óculos estão tortos e preciso de ir ao oculista para tratar deste assunto.
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No interim, escrevi lá no Jugular um conto natalício sobre a autora que sou. Deus me perdoe, mas o Projecto Lei 118 é tão mal enjorcado. Não me levo a mal o tom de inconfidência. Raramente falo de mim e quando o faço, nunca é neste tom vagamente sobranceiro mas que verdade é esta? A verdade da minha vida.
Noite de Paz, noite de amor, tudo dorme em redor ©
Há um ano, ou nem isso, experimentei a vertigem da surpresa ao descobrir na Amazon a capa de um disco que se parecia com uma obra da minha autoria. Na realidade, a coisa era uma versão grosseira do que eu desenhara. Mantinham-se cores, tipografia, tratamento e enquadramento da imagem mas o resto, enfim, a adaptação era, é pesadélica. Sucede que, obviamente, eu não fora tida nem achada para o que ali se vendia, vende legalmente, com o selo de uma editora reconhecida. Tudo dentro da normalidade que a lei dita. Até hoje não percebo bem o que vi, o que era e continua a ser aquilo que por lá anda. Esta história não constitui um lamento, tanto mais que de funesto o evento durou os minutos que em mim demoram estas partes gagas. Espantei-me, copiei a parvoíce gráfica para dentro dos meus arquivos e parti em busca de mais atropelos deste estilo foleiro. No segundo episódio da aventura, já o meu coração saltitava alegre e cínico: copy/paste para a colecção de paroladas d’après originais Fátima Rolo Duarte, pois são mais que as mães. Breve: a autora, que sempre fui e sou, vê a sua obra tratada com os pés, e mesmo sabendo que a vendeu a uma editora, outra, reconhece, sem que lhe doa a alma, que há uns autores que são mais autores que outros autores. Ou não? Sim. A questão, pode entrar agora o coro paradoxal, resolver-se-ia se acaso eu pertencesse à SPA, se me tivesse dado ao trabalho de defender o meu direito à autoria? Não sei, não me dei à tarefa heróica, nem vou dar, mas nada me impede de contar e recontar a saga de uma autora às voltas com cópias de cópias «legalmente» maradas do seu trabalho. Em átomos e bits. O Projecto de Lei 118, a que carinhosamente chamo taxa Canavilhas, pretende adequar os direitos de autor ao fantástico universo digital com um valor a cobrar definido pela capacidade dos equipamentos para armazenar cópias privadas. Ah! Imaginando que a coisa Canavilhas vigorava e que a autora que sou tinha acabado de comprar este computador, uma bomba Tera, para guardar tudo e mais alguma coisa do que faço, e também as cópias das cópias foleiras dos meus originais, pois iria pagar, ou não, que raio de confusão, mais uns maravedis, 21 euros? Que em boa verdade me pertencem desde sempre. Sou autora, nunca fui outra coisa senão isto mesmo. Autora de textos, imagens, grafismos, ilustrações, colagens, pintura, pequenos filmes, colaborações anónimas com outros artistas para todos os gostos e feitios, incontáveis blogs desde 2003 cujos templates criei, redesenhei, samplei, resamplei à minha maneira, «estranha forma de vida». Low profile até ao dia, low profile enquanto me apetecer e secreta em inúmeros aspectos da minha vida de autora. Quem faz o que fiz e segue caminho, anda nisto há muitos anos, em modo antigo e moderno. Em átomos e bits. Vou tentar, agora, explicar-me a situação: o que Canavilhas pretende é proteger-me, taxando os equipamentos que eu, como autora, preciso para continuar a ser autora, incluindo a anedota de me ver a copiar as cópias dos meus originais, tal e tal num esquema financeiro com dinheiros que passam dali, seguem por acoli e desaguam na SPA e que me virão parar às mãos de que forma? E aqui temos a nossa fossa de Mindanau, ou talvez não, porque uma vez sócia cooperante da Sociedade de Autores e isto e mais aquilo e o quê? Fiquei subitamente cansada com a cavalgada a favor dos desgraçados autores, uns incapazes a necessitar que os protejam, desta única forma, de quem? Da SPA que naturalmente cobra taxas (e que taxas!) aos autores cooperantes, da deputada Canavilhas cuja taxa irá taxar duplamente quem pretende proteger, dos vizinhos, da autora que sou, das máfias organizadas? Para ser franca, quero que a taxa Canavilhas se dane, tanto mais que atinge bibliotecas digitais, escolas, universidades, quero-lá-saber dirão os autores que subscrevem o Projecto de Lei 118? É mais ou menos isto, não é? Claro que é que-se-dane para quem apenas se lê a si mesmo (e que maioria tão maioritária, Deus) e cultiva o quero-lá-saber-de-ti; para quem se preocupa com o tamanho do seu umbigo, quero-lá-saber-de-ti e para quem o mundo tem o tamanho de uma ervilha que, uma vez bem olhada, leva o nosso nome marcado, oh, oh,quero-lá-saber-de-ti. Não é? É, pois. A autora que sou, entende que uma boa parte da sua obra é abrangida pelo inequívoco direito da partilha sem que me toque um cêntimo ou sequer com a obrigação da referência à fonte original. Não me ofende, em nada, que tu aí me saques obra digital e a «adeques» ao que bem te apetecer. Usa e abusa, divulga o meu nome ou oculta-o, ignora-me ou nem por isso. Faz o que te der na gana: express yourself até ao ponto em que todos somos autores, uns mais que outros, como sempre, no que de positivo e negativo isto tem. Porque não vejo só maravilhas neste «novo» universo de novos autores que todos os dias se multiplicam «adequados» aos tempos de hoje, mas este é assunto diverso porque a preocupação segue para outras direcções. Se os autores percebessem o que o futuro da «adequação» dos seus direitos ao mundo digital lhes reserva, meu Deus e como tudo se interliga numa teia que começa nesta taxa Canavilhas pensada às canhas. Se todos percebessemos o que está em causa. Enfim. Por mim, o magno assunto dá pelo nome de ACTA e compromete o futuro da Internet tal como nos habituámos a usá-la: de forma livre. Digamos que a «adequação» que leva a hashtag PL118 parece uma janela aberta de oportunidades para a hashtag que nos irá marcar a todos, autores e mais ou menos isso, preocupem-se, desde já com a #ACTA. Parece confuso, mas garanto que é de uma simplicidade assustadora |
Como sempre, ando ocupada a observar tudo e todos e naturalmente a dar-me à observação, claro. O Facebook, onde abri uma conta que nada tem a esconder, antes pelo contrário, é um maravilhoso repositório de histórias aos quadradinhos. Passo algumas horas por dia de volta daquelas pessoas. Escrevo umas graçolas e pronto.
Vi o Paulo Querido, feliz, a tomar conta daquela coisa mobilizante «uma moeda para Cavaco». O jornalista news jockey, sei lá quê, tem uma voz que não corresponde ao tom agressivo da escrita, cheio de ouve-lá-pá e na Net desde 1914. Não me canso de achar graça a isto, talvez porque esta é a marca desta fabulosa pessoa. Tudo naquela iniciativa me pareceu disparatado e por isso mesmo divertido. Foi notícias nas televisões mas para o assunto não morrer seria bom que o quê? Até hoje e de forma quase incompreensível, Cavaco Silva tem beneficiado dos favores da comunicação social. Apesar de alguns dizerem o contrário, mas haverá sempre quem ande nisto porque faz parte.
O aumento dos transportes não suscita acções de protesto. Não falo deste engraçadismos. Falo de acções justas, sérias, de luta. Hum. Já venho. Vou ali tratar de uns assuntos domésticos e culturais.
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